quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

"Ser jornalista é separar o joio do trigo...

... E publicar o joio" - Mark Twain

O que parece acontecer, nos cursos de jornalismo no Brasil, é uma preocupação exacerbada com o respeito ao formato da maioria das notícias que estão na mídia. Ainda que a pirâmide invertida – muito mais comercialmente que ideologicamente – faça sentido, parece haver uma necessidade de garantir que, daquela maneira, os alunos, ao final dos quatro anos, saberão escrever, e, por isso, poderão ser absorvidos pelo mercado.

Na realidade, é frustrante ver como as matérias de maior destaque na história, muitas das ganhadoras de prêmios importantes, não estão escritas dessa forma: ao contrário, ganham pontos por serem mais pessoais, mais subjetivas, mais, portanto, opinativas. Quem decide fazer jornalismo entra na universidade sem sequer imaginar o que acontecerá com a maneira como costuma escrever.

Eu me lembro bem de, antes do meu vestibular para jornalismo, ter lido em uma compilação de reportagens, a matéria de Merriman Smith sobre a morte do presidente Kennedy (ganhadora do Pulitzer de 1964) e pensado: “Seria genial poder contar histórias, no papel, todos os dias, pelo resto da minha vida”. No entanto, quando começamos o curso, somos adestrados a escrever de uma maneira diferente e, hoje, eu jamais seria capaz de escrever algo tão íntimo quanto era aquela matéria que me fez querer ser jornalista.


Nossas idéias já afloram na tal pirâmide invertida (até para contar uma história qualquer, lembro-me sempre que o fundamental é estabelecer “o que, quando, onde, quem, como e por quê” nos primeiros segundos). Além disso, o jornalismo opinativo, nas raras vezes quando é colocado em pauta em sala de aula, é deixado para os experts
. Pensemos: nenhum aluno de jornalismo ousa querer escrever colunas; quem escreve coluna é quem pode fazê-lo, ou seja, quem já está na área há décadas e adquiriu o know how e o status para poder dar sua própria opinião (algo absurdo se visto de uma perspectiva mais estreita, afinal, opinião é o mínimo que possuímos, enquanto seres pensantes).

O que acontece, no entanto, é que, se isso um dia foi verdade (talvez no tempo de universidade de alguns de nossos professores...), hoje, já não é mais. O jornalismo está em um processo de mudança que trará, cada vez mais, a participação da voz do próprio jornalista para uma matéria. Notícia por notícia, podemos ler uma a cada segundo, na internet, contando só os fatos principais; mas seguimos comprando jornais, para saber mais, e comprando revistas, para ir mais fundo nos assuntos que nos interessam.


Com a expansão dos blogs e microblogs, contam, agora, outros elementos além da função de informar, ou o currículo, para que sua opinião valha a pena ser lida. Contam o grau de inovação, de perspicácia, de coragem, entre outros critérios igualmente subjetivos. O curso de jornalismo não está formando profissionais para o mercado atual: está formando jornalistas da velho escola, que, ao entrar no mercado, este de agora, são forçados a iniciar uma nova busca de qualificação, de identidade, de perfil.


Dentro de não muito tempo, se seguirmos assim, o que o curso estará fazendo será desqualificando seus alunos para a profissão de jornalista, enquanto tenta que se atenham a um modelo que já não é nem único (nunca foi, na realidade) nem predominante nos veículos.


Eu, algum dia, sonhei ganhar um Pulitzer (porque sonhar é permitido) com uma reportagem como a de Merriman Smith. Hoje, acho mais fácil sonhar com conseguir voltar no tempo e escolher outro curso, para, então, voltar a sonhar com o Pulitzer. A habilidade que um dia eu achei que tinha, com lápis, papel e idéias, hoje, cedeu lugar para o pseudo-conhecimento jornalístico. Hoje, eu não me sinto nada habilidosa, sinto-me demasiadamente jornalista. E, nos últimos quatro anos, esses termos se tornaram antônimos.


domingo, 15 de Novembro de 2009

Abraços Partidos, emoções completas

Novo filme de Almodóvar combina entretenimento, arte e amor ao cinema


Estréia no Brasil, no próximo dia 20, o novo filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar – com o atraso de sempre, já que entrou em cartaz na Europa e nos Estados Unidos em março deste ano. Los Abrazos Rotos (traduzido para o português como “Abraços Partidos”) é mais um drama almodovariano, desta vez com um triângulo amoroso no centro e uma narrativa dividida em dois tempos, com uma valorização extraordinária dos detalhes que compõem as imagens e o texto.


Abraços Partidos não pode ser comparado aos últimos filmes do cineasta, Volver – um filme delicado, sensível, capaz de valorizar as mulheres – e Má Educação, forte, marcante, injusto com o espectador despreparado. Deixando no passado suas tramas com temas mais difíceis, como mulheres enlouquecidas, encesto e estupro, Abraços Partidos gira em torno de relações humanas simples, como paixão, gratidão, ciúme e ausência. Pela quarta vez, o cineasta convoca a atriz Penélope Cruz, que, em uma atuação intensa, carismática e muitíssimo madura, faz valer o título de musa com o qual Almodóvar lhe presenteou.


O filme traz a história de Harry Caine (Lluís Homar), pseudônimo de um roteirista cego que, quando podia ver, era o diretor de cinema Mateo Blanco. Nessa época, ele se apaixonou por Lena (Penélope Cruz), uma jovem atriz, amante de um importante homem de negócios, Ernesto Martel (José Luis Gómez), que não permitiria que Lena o abandonasse facilmente. Fora à trama principal, há um pano de fundo relacionado ao cinema, uma vez que o papel de Mateo como diretor faz com que a boa parte do filme se desenvolva durante a filmagem do filme-dentro-do-filme “Chicas y maletas” (Garotas e Malas, em tradução livre).


Almodóvar cria um filme interessante e divertido, despertando, a cada momento - e nos momento certos - emoções das mais diversas no espectador. O diretor e roteirista se preocupa não só em contar a história, mas com como contá-la. Mais uma vez, trabalha com uma fotografia primorosa e uma trilha sonora planejada para mexer com os sentimentos do espectador. A sensação que temos é que o cineasta consegue transformar em imagem, som e palavras exatamente o que apareceu em sua cabeça no momento da concepção do filme.


A direção de fotografia é de Rodrigo Prieto, que assinou cenários de filmes como Brokeback Mountain e Babel. Em Abraços Partidos, Prieto deve ser visto como co-autor do roteiro, uma vez que a história contada perderia muito de sua expressão sem o trabalho precioso do artista. As cenas parecem, todas, material para um possível cartaz do filme, ressaltando-se os traços de pop art característicos do diretor. Alberto Iglésias é responsável pela música e consegue, por sua vez, conjugar o que se ouve com o que se vê com impressionante precisão.


Entre os pontos negativos do filme está o fato de que muitas das revelações que aparecem perto do final são bastante previsíveis. Além disso, o triângulo amoroso que seria o cerne do filme, em muitos momentos, parece um rocambolesco círculo de omissão, fatalidades e vingança. No mais, a escolha do tema e o desenvolvimento da trama parecem ter o objetivo de buscar um público além daquele fiel a Almodóvar: se o objetivo era esse, seguramente foi alcançado. O filme não é tão tenso ou complexo quanto costuma ser o gênero almodovariano. Abraços Partidos não é um filme feito apenas para os interessados em cinema artístico; quem vai pelo entretenimento tampouco se arrepende.

“Meu Caro Amigo” lota Teatro Apolo

A peça é aplaudida de pé pela multidão de fãs de Chico Buarque

Às 19h dessa sexta-feira, uma hora antes do espetáculo “Meu Caro Amigo” começar, a fila na porta do Apolo chegava quase ao começo da rua de mesmo nome. Todos os ingressos para a sexta e para o sábado já estavam vendidos. O segurança do Teatro – com quem eu conversava, casualmente, enquanto tentava encontrar um jeitinho de entrar, sabiamente, comentava: “É o poder do nome de Chico Buarque, minha filha”. “Verdade”, respondia, balançando a cabeça afirmativamente, de olho na movimentação dos produtores.

De fato, todos ali pareciam ser fãs de Chico Buarque e haver escolhido a peça (muitos, inclusive, passado no teatro no dia anterior para comprar os ingressos) porque a história tinha a ver com o compositor, e músicas dele embalariam o espetáculo. Às 20h, quando as cortinas deveriam se abrir, a produção da peça, vendo que ainda restavam algumas dúzias de pessoas fora do teatro com esperança de conseguir um ingresso de última hora, mandou que se colocassem à venda mais 36 ingressos, número de cadeiras que seguiam vazias. Venderam, ainda, outros mais, avisando que as pessoas teriam que ficar nas escadas, mas ninguém pareceu se incomodar.

Como fã deste poeta somente comparável a Fernando Pessoa em precisão do uso da língua portuguesa, achei bastante justo que um dos ingressos de última hora fosse meu. Entramos todos e, às 20h30, começou o espetáculo. A historia é simples: no palco, a personagem Norma (Kelzy Ecard), uma fã de Chico Buarque, abre o coração e declara seu amor ao artista. Ela se apresenta como professora de História do Brasil, e, enquanto narra sua história de paixão pelo compositor, em um monólogo, relembra os fatos mais importantes das décadas de 60 a 80.

O texto abre espaço para algumas músicas do cantor, interpretadas pela atriz ou na voz do próprio artista. A interpretação da atriz é despretensiosa e bem humorada. À sua direita, no palco, em meio a inúmeros LPs de Chico Buarque, uma cama, uma mesa com uma máquina de escrever – com a qual escrevia cartas para o ídolo –, está o pianista João Bittencourt, que acompanha a protagonista quando é sua vez de cantar. O cenário tem, ainda, um quadro negro e está cercado de cortinas, reproduzindo tanto o quarto de infância da personagem, quanto a sala de aula que ocupa já adulta.

A voz da cantora é tão agradável quanto sua performance no palco. Uma platéia tímida se animava quando começavam as canções do nosso idolatrado Chico, e alguns ousavam acompanhar a cantoria. Tudo parecia tão real, tão honesto, que me perguntava se não seria uma auto-biografia disfarçada. Se não era (e não devia ser, afinal, o próprio Chico já disse que pensar que tudo é auto-autobiográfico “enaltece a vida da pessoa, mas subestima a imaginação”), certamente estavam na platéia várias mulheres que sentiam, também, que as músicas haviam sido feitas para elas e que só o compositor as entendia.

Imagino que, para quem viveu os anos da ditadura militar no Brasil, o espetáculo toma uma dimensão ainda mais emocional. A obra do cantor, de fato, reflete essa era e marcou inúmeras vidas. Para quem conheceu Chico há menos anos do que a ditadura existiu, como eu, ainda assim, é um passeio temporal digno de uma aula de História. E, jovens ou quarentonas, todas ali concordamos quando Norma disse que se casaria com Chico imediatamente, se ele a quisesse. Mesmo sem nenhum ator “global” e sem ampla divulgação, o espetáculo foi um sucesso de público, coisa rara por aqui. Vale (mais) a pena para os fãs e para os que viveram essa época ou se identificam, de alguma maneira, com o roteiro.